Evento aconteceu na Câmara Municipal com especialistas e o grafiteiro Binho Ribeiro

 

A Câmara Municipal de São Paulo recebeu, em 23 de setembro, ação da Campanha #gravidezsemalcool, da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Ao lado do grafiteiro Binho Ribeiro, médicos especialistas e o vereador Gilberto Natalini (PV) trabalharam para alertar a comunidade, e em especial as futuras mães, a respeito de um problema que se agrava a cada ano: a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF).

Em conversa com jornalistas, Claudio Barsanti, presidente da SPSP, Conceição Aparecida de Mattos Ségre, coordenadora do Grupo de Prevenção dos Efeitos do Álcool na Gestante, no Feto e no Recém-Nascido, e Mario Hirschheimer, ex-presidente da SPSP e membro da atual Diretoria Executiva, tiraram dúvidas recorrentes sobre o consumo de bebidas alcoólicas durante a gestação e as consequências de tal ato.

Sob o mote “Gravidez sem álcool: trabalhando por um futuro melhor”, Binho Ribeiro, um dos pioneiros do street art na América Latina, ilustrou painel durante a ação, doando-o à SPSP.

A edição 2016 também foi abraçada pela atriz Bárbara Borges, madrinha da Campanha e mãe de dois meninos – Martin Bem, de 2 anos, e de Theo Bem, de apenas um mês.

“Não podemos fechar os olhos para o crescimento do consumo de álcool entre as mulheres grávidas. É preocupante, já que não há qualquer comprovação de uma quantidade segura para nossos filhos. Devemos, sempre, optar por tolerância zero à bebida alcoólica”, defende a atriz.

A iniciativa #gravidezsemalcool conta com apoio institucional da Marjan Farma, e cooperação da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (SOGESP), Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, Academia Brasileira de Neurologia, Associação Paulista de Medicina e Associação Brasileira das Mulheres Médicas- Seção São Paulo.

Pesquisa inédita

Estudo divulgado durante ação da Campanha #gravidezsemalcool, confirma a pertinência de um processo intenso e permanente de conscientização à sociedade e aos médicos.

A pesquisa inédita realizada pela SPSP, com apoio da Marjan Farma, conclui que 22,7% dos médicos pré-natalistas entrevistados aceitam a ingestão de até uma taça de vinho por gestante. No caso dos drinques com teor alcoólico mais elevado, 4,5% não contraindicam, desde que no limite de duas doses. Tal postura evidencia a desinformação quanto aos riscos da exposição pré-natal a qualquer tipo e quantidade de bebida alcoólica, podendo acarretar a Síndrome Alcoólica Fetal.

O levantamento ainda aponta outro sério problema na relação médico-paciente, considerando que 44,8% dos especialistas alegam que as mulheres não os informam se estão consumindo álcool durante a gestação.

Ao todo, foram ouvidos 1.115 médicos pré-natalistas, atuantes nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, entre 25 de abril e 20 de maio de 2016.
Ginecologia-obstetrícia é a principal área de atuação dos entrevistados (92,5%); quanto ao sistema em que trabalham, a maioria pertence à rede privada (49,8%) – apenas 3,4% dedicam-se somente à saúde pública; 46,8% estão presentes em ambos.

“Os dados obtidos apontam à necessidade de investirmos continuamente na ampla divulgação entre especialistas, ação já realizada pela SPSP e a Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo (SOGESP), uma das parceiras na Campanha #gravidezsemalcool. Para corroborar com esta empreitada, também precisamos da aprovação de leis que institucionalizem campanhas permanentes de esclarecimento e informação a respeito ingestão de qualquer dose de álcool durante a gravidez”, afirma Claudio Barsanti, presidente da SPSP.

Sobre a SAF

A exposição pré-natal a qualquer tipo e quantidade de bebida alcoólica pode acarretar problemas graves e irreversíveis ao bebê. Eles podem revelar-se logo ao nascimento ou mais tardiamente e perpetuam-se pelo resto da vida. A Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) apresenta diversas manifestações, desde malformações congênitas faciais, neurológicas, cardíacas e renais, mas as alterações comportamentais estão sempre presentes. Contabiliza, mundialmente, de 1 a 3 casos por 1000 nascidos vivos. No Brasil não há dados oficiais do que ocorre de norte a sul sobre a afecção; entretanto, existem números de universos específicos.

Contabiliza, mundialmente, de 1 a 3 casos por 1000 nascidos vivos. No Brasil não há dados oficiais do que ocorre de norte a sul sobre a afecção; entretanto, existem números de universos específicos.

Para ter uma ideia, no Maternidade Escola de Vila Nova Cachoeirinha, um estudo com 2 mil futuras mamães apontou que 33% bebiam mesmo esperando um bebê. O mais grave: 22% consumiram álcool até o dia de dar à luz.

“É fundamental ressaltar que o melhor caminho é realmente a prevenção”
completa a Dra. Conceição Aparecida de Mattos Ségre, coordenadora do Grupo de Prevenção dos Efeitos do Álcool na Gestante, no Feto e no Recém-Nascido da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). “Não há qualquer comprovação de uma quantidade segura de bebida alcoólica que proteja a criança de qualquer risco. Neste caso, a gestante ou a mulher que pretende engravidar deve optar por tolerância zero à bebida alcoólica”.

Características

O conjunto de efeitos decorrentes do consumo de álcool, em qualquer dosagem ou período da gravidez, é chamado de “espectro de distúrbios fetais relacionados ao álcool”, que inclui a SAF. A frequência dessas complicações varia conforme estado nutricional da gestante, genética e até mesmo a quantidade ingerida. Isso não significa que todos os bebês expostos serão afetados, mas a probabilidade é alta.

“Bebês com SAF têm alterações bastantes características na face, as chamadas dismorfias faciais. Além disso, faz parte do quadro o baixo peso ao nascer devido à restrição de crescimento intrauterino, e o comprometimento do sistema nervoso central. Essas são as características básicas para o diagnóstico no período neonatal”, comenta o presidente da SPSP.

No decorrer do desenvolvimento infantil, o dismorfismo facial atenua-se, o que dificulta o diagnóstico tardio. Permanece o retardo mental (QI médio varia de 60 a 70), problemas motores, de aprendizagem (principalmente matemática), memória, fala, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, entre outros. Adolescentes e adultos demonstram problemas de saúde mental em 95% dos casos, como pendências com a lei (60%); comportamento sexual inadequado (52%) e dificuldades com o emprego (70%).

Diagnóstico e Tratamento

Em São Paulo, o Grupo da SPSP cria ações para conscientizar os pediatras, com distribuição de material em eventos científicos, publicações disponíveis na internet aos associados da SPSP e cursos voltados para equipes multidisciplinares de capacitação para reconhecimento e condutas nesses casos.

Nos Estados Unidos e Canadá, existe um teste que identifica produtos do álcool no mecônio ou cabelo do recém-nascido. É uma técnica de alto custo, que ainda não está disponível no Brasil.

“Vale lembrar que os efeitos do álcool ocasionados pela ingestão materna de bebidas alcoólicas durante a gestação não têm cura, por isso vale a máxima:
o quanto antes parar, melhor para o bebê, sua família e a sociedade. O diagnóstico precoce da doença e a instituição de tratamento multidisciplinar ainda na primeira infância podem abrandar suas manifestações”, completa a Dra. Conceição.